o mercenário ergueu sua
arma com ambas as mãos e a baixou, pondo no golpe todo o
seu peso, por baixo do braço e por entre as costelas. Sor
Vardis Egen estremeceu e ficou imóvel.
Sobre o Ninho da Águia pairou o silêncio. Bronn arrancou o
meio elmo e o deixou cair na relva. Tinha o lábio amassado e
sangrento onde fora atingido pelo escudo, e os cabelos negros
como o carvão estavam empapados de suor. Cuspiu um dente
partido.
- Acabou, mãe? - perguntou o Senhor do Ninho da Águia.
Não, Catelyn quis lhe dizer, es tá apenas começando.
- Sim - disse Lysa sombriamente, com a voz tão fria e morta
como o capitão de sua guarda.
- Posso fazer o homenzinho voar agora?
Do outro lado do jardim, Tyrion Lannister pôs-se em pé.
- Este homenzinho, não - disse. - Este homenzinho irá para
baixo no cesto dos nabos, muito obrigado.
- Presume... - começou Lysa.
- Presumo que a Casa Arryn recorde suas próprias palavras -
disse o Duende. - Tão Alto Como a Honra.
- A senhora me prometeu que eu o faria voar - gritou o Senhor
do Ninho da Águia à mãe, e começou a tremer.
O rosto da Senhora Lysa estava corado de fúria.
- Os deuses acharam por bem proclamá-lo inocente, filho. Não
temos outra escolha que não seja libertá-lo - ergueu a voz. -
Guardas. Levem o senhor de Lannister e o seu... a sua
cr iatura para longe da minha vista. Escoltem-nos até o
Portão Sangrento e os libertem. Tratem que tenham cavalos e
abastecimentos suficientes para alcançar o Tridente, e
assegurem-se de que todos os seus bens e armas lhes sejam
devolvidos. Precisarão deles na estrada de altitude.
- A estrada de altitude - disse Tyrion Lannister. Lysa
permitiu-se um tênue sorriso satisfeito. Catelyn compreendeu
que era outro tipo de sentença de morte. Tyrion Lannister
devia sabê-lo também. Mas o anão concedeu à Senhora Arryn
uma reverência trocista. - Que seja conforme ordena, minha
senhora. Julgo que conhecemos o caminho.

Jon

- São os rapazes mais incapazes que já treinei - anunciou Sor
Alliser Thorne depois de se reunirem todos no pátio. - Suas
mãos foram feitas para pegar em pás de recolher estrume, não
em espadas, e se dependesse de mim, iriam todos criar porcos.
Mas ontem à noite me foi dito que Gueren traz cinco rapazes
novos pela Estrada do Rei. Um ou dois podem até valer o
preço de um mijo. Para abrir lugar para eles, decidi passar
oito de vocês ao Senhor Comandante, para que faça de vocês
o que bem entenda - chamou pelos nomes um a um. - Sapo.
Cabeça Dura. Auroque. Amante. Borbulha. Macaco. Sor
Vadio - por fim, olhou para Jon. - E o bastardo. Pyp soltou
um uuup, e espetou a espada no ar. Sor Alliser fitou-o com
um olhar de réptil.
- Vão se chamar agora homens da Patrulha da Noite, mas se
acreditarem nisso, são tolos maiores ainda do que o Macaco
de Saltimbanco. Ainda são rapazes, verdes e fedendo a verão,
mas quando o inverno vier, morrerão como moscas - e com
aquilo Sor Alliser Thorne retirou-se.
Os outros rapazes reuniram-se em torno dos oito que tinham
sido nomeados, rindo, praguejando e dando-lhes os parabéns.
Halder deu uma pancada no traseiro de Sapo com o lado da
espada e gritou:
- O Sapo, da Patrulha da Noite!
Gritando que um irmão negro precisava de um cavalo, Pyp
saltou para os ombros de Grenn e caíram ambos ao chão,
rolando, aos socos e aos gritos. Dareon precipitou-se para o
armeiro e regressou com um odre de tinto amargo. Enquanto
passavam o vinho de mão em mão, sorrindo como idiotas,
Jon reparou em Samwell Tarly, que estava sozinho debaixo
de uma árvore morta sem folhas, a um canto do pátio.
Ofereceu-lhe o odre.
- Um trago de vinho?
Sam abanou a cabeça.
- Não, obrigado, Jon.
- Você está bem?
- Muito bem, garanto - mentiu o rapaz gordo. - Estou feliz por
todos vocês - a face redonda tremeu quando forçou um
sorriso. - Um dia você será Primeiro Patrulheiro, tal como era
o seu tio.
- Tal como é - corrigiu Jon. Não aceitava que Benjen Stark
estivesse morto. Antes de poder dizer mais, Halder gritou:
- Dê aqui, pensa que vai beber tudo sozinho? - Pyp arrancou-
lhe o odre da mão e afastou-se dançando, rindo. Enquanto
Grenn lhe agarrava o braço, Pyp deu um apertão no odre e
um fino jato vermelho esguichou na cara de Jon. Halder
urrou em protesto contra o desperdício do bom vinho. Jon
cuspiu e debateu-se. Matthar e Jeren subiram no muro e
começaram a jogar bolas de neve em todos eles.
Quando conseguiu se libertar, com neve nos cabelos e
manchas de vinho na capa, Samwell Tarly tinha
desaparecido.
Nessa noite, o Hobb Três Dedos cozinhou para os rapazes
uma refeição especial a fim de marcar a ocasião. Quando Jon
chegou à sala comum, foi o próprio Senhor Intendente que o
levou para o banco junto ao fogo. Os homens mais velhos
deram-lhe palmadas no braço quando passou por eles. Os oito
que em breve seriam irmãos banquetearam-se com uma peça
de cordeiro assada em crosta de alho e ervas, guarnecida com
raminhos de menta e rodeada com purê de nabo nadando em
manteiga.
- Da mesa do próprio Senhor Comandante - disse-lhes Bowen
Marsh. Havia saladas de espinafre, 